Odeio despedidas. Elas sempre me fazem pensar como a vida é um emaranhado de sintomas sem diagnósticos. Como o Google. A vida é sintomática.

Agora mesmo, minha barriga dói. Minhas costas doem. Meu corpo pede mais água, fibras, proteína. Pode ser uma virose ou um câncer. Sei lá. É sintomático. Me despedi do meu último chefe. Sujeito calabisticamente egoísta. Versa sobre tudo com rara superficialidade. Música. Literatura. Música. Artes. Traz consigo 1,90 de puro desprezo. Olha-te de cima a baixo e começa. Versa. Discute. Discorda. Fala merda e não se desculpa. Sintomático.

Já tive um câncer. Certa vez me disse. Olhando-me de cima a baixo, como sempre. Levava como um troféu. Sobreviveu. Colocava dinheiro em tudo. Às vezes de forma fugaz. Outras vezes não. Mas, como não haveria de ser diferente, contou, sem pressa, com detalhes, a tesouraria de seu tratamento. Depois, do processo que meteu em seu plano de saúde por lhe negar o tratamento à la mode na Europa. Tiramos uma puta dinheiro. Recuperamos cada centavo daqueles desgraçados. Dizia, garboso.

Eu pedi pra sair. Meu rim doía. Ou talvez era meu baço. Intestino ou coração. Uma semana depois, nos encontramos para ele me dar as coisas que esqueci no escritório. O nosso resto. Você faz falta, disse-me, dessa vez, olhando em meus olhos. Devolvi o olhar. Está melhor? Fiz uma negativa com a cabeça. Vou sobreviver. Você também. Ninguém é insubstituível, lhe falei. Sorriu de canto de boca. A gente se vê. Dessa vez, eu o olhei de cima a baixo. Eu passo aí. Dê notícias. Se tiver um câncer, me liga. Sorri para ele de volta.

Nunca mais vamos nos encontrar. Ou talvez sim, em um corredor gigante com macas e doentes em cada metro quadrado. Em meio a soros e agulhas me perfurando o corpo todo, vou lhe olhar de cima a baixo. Estarei deitado. Ele irá me questionar sobre os valores do meu internamento.

Direi-lhe, então, que é um hospital público. Saí do emprego. O chuveiro havia quebrado. A casa estava empoeirada. havia um buraco no teto do banheiro. Minhas entranhas se contorciam. Sangue jorrava pela minha boca. O Google havia dito que era sintomático. Continuei escrevendo. Sem emprego, até cair duro no chão. Minha namorada havia gritado. Você é um idiota. Minha mãe quase morreu com a notícia. Estava em um avião, indo para a Bolívia, de férias. Quase morri com Dostoiévski na mão. Veio a ambulância. Salvou-me, teoricamente. Ele iria, então, me devolver a história com um sorriso. Me contaria algum causo sobre uma vez que ele quase morreu também. Aliás,  disse-me como que se despedindo, uma vez, tive um câncer. Quase morri. Mas tirei um dinheirão daqueles merdas. Iria sorrir, me olhar, virar de costas e não voltaria a olhar pra mim.Nunca mais.

(foto: www.paginasiniciais.com.br)