Nas terras onde me criei, os dias chuvosos, principalmente aqueles seguidos de tempestades com trovões e ventanias, eram sinal de que em instantes ficaríamos sem energia. Ou, como costumavam dizer os antigos, “a luz iria cair”. Velas acesas e, enquanto a parafina derretia, ouvidos atentos para as histórias que Vó Dú começaria a contar.

Vó Dú, Dú do Pedro Cachaça ou Dona Dú costureira, eram algumas das formas que a mineira Eduvirges carinhosamente era chamada. Mulher vivida. Senhora calejada. Nas costas já corcundas carregava o peso de décadas de trabalho sofrido na incansável luta de alimentar seus dez filhos.

Talvez, com a correria e as inovações tecnológicas que, mesmo atrasadas, já tomavam conta do interior mineiro, a ociosidade das tardes sem energia dava lugar a viagens de volta no tempo.  

Numa dessas tardes, interrompendo-a enquanto rezava a oração da “Salve Rainha” que, segundo ela, acalmava as tempestades, contos começaram a surgir de sua boca. Histórias. Lendas. Crenças e costumes dos antigos.

Foi então que, terminada a tempestade, podia-se ouvir o canto de um pássaro. Diferente de qualquer outro, este expressava certo mistério no cantar.

Segundos depois, num esforço de recordação, lembrava e contava ela que o pássaro do canto, conhecido na região do espinhaço, norte mineiro, como pássaro agourento, de nome científico “acauã”, anunciava a morte de um conhecido. Para eles, sua vocalização – emissão de sons cantados – é transcrita como “Deus quer um”.

Desde a infância da minha avó, ouvir aquele canto era sinal de que o morador de alguma daquelas casas próximas da árvore em que o pássaro se assentava, dias depois viria a falecer. E era certeiro, lembrava ela. Das recordações mais marcantes, a de quando o pássaro anunciou a morte do seu pai. Depois da sua mãe. De alguns conhecidos e até do seu esposo.

Na vizinhança da antiga casa em que morávamos no interior mineiro, recordo de diversas mortes prenunciadas pelo pássaro. Cantava por três, quatro dias seguidos. Logo, os alto falantes da matriz davam a notícia. Até o dia em que, num fim de dezembro, o ouvi cantar pela última vez. Anunciava ele, a morte da minha Vó Dú.