No horário da café da tarde, chamo as 25 crianças que estão brincando no parquinho. Levo-as em fila até o refeitório, enquanto a professora acompanha ao lado para evitar bagunça. As crianças ocupam as cadeiras da mesa comprida do centro do refeitório. A maioria tem apenas 6 anos. Tão pequenos que nenhum pé alcança o chão. Ficam se balançando para frente e para trás. Os hiperativos não conseguem se manter sentados. Ficam em pé nas cadeiras e começam a pular para o chão. Logo, outras crianças começam a imitá-los.

O local, já pequeno, fica ainda menor quando algumas decidem correr. Rolam por baixo das mesas. Começam a brigar. A Emanuelly puxa o cabelo da Ágatha. O choro se perde em meio aos gritos. Gritos de outras crianças. A professora, com o rosto vermelho de impaciência e olhos cerrados, corre atrás das crianças que estão fora das cadeiras. Agarra com força o braço do Saimon. A outra mão arrasta o Julio até a sua devida cadeira. E assim faz até que todos seus alunos estejam sentados ao redor da mesa.

Em seguida, com minha ajuda, coloca a bandeja com pães na mesa. Estão cortados ao meio. Duros. Não são de ontem. Nem amanhecidos. Claramente estão há dias guardados. Impossível dizer se foram doados assim ou se são sobras de outros cafés da tarde. O responsável por passar a manteiga estava com pressa.

A professora distribui o pão e eu ajudo a entregar o suco. As crianças explodem de felicidade. Estendem os braços em minha direção. “Tia, tia!”. Gritam porque todos querem ser o primeiro a receber o suco. A euforia toma conta. Sou contagiada pela alegria daqueles pequenos. A felicidade por um copo de suco é visível em seus olhos.

Alguns comem todo o pão. Outros tentam. Os dentinhos frágeis são quase incapazes de morder. Minutos depois, a sopa chega. A professora começa a colocar em pequenas tigelas. Tigelas de várias cores. Macarrão de parafuso, mas com legumes. O que é um problema. Crianças odeiam legumes. Ao distribuir para os pequenos, alguns balançam a cabeça de um lado para o outro. Nicole, Mariana, João, Guilherme e Lucas aceitam.

Nicole, a segunda menina mais bagunceira da turma, começa a fazer movimentos circulares com a colher na sopa. Enquanto mistura, se estica na cadeira para conseguir enxergar o que há na tigela. Seus olhos cor de mel dilatam de curiosidade. É uma das crianças mais tagarelas. Difícil dizer se é a mais fofa. Pois todas são. Mas é a mais bochechuda, sem dúvidas.

Estava atrás da Nicole a observando. Não demorou muito para Nicole perceber os pedaços de cenoura e batata na sopa. De imediato, franziu o cenho e tirou a língua para fora. Cara de nojo. “Tia, tia!!”, puxou a minha camiseta me levando para perto dela. “Não quero mais!!”, arrastando a tigela para longe.

Sentei na cadeira vazia ao lado dela. Virei Nicole para que ficasse de frente comigo. Era tão branca que o pouco tempo no parquinho deixou marcas em sua pele. Bochechas vermelhas. Nicole sorriu pelo canto da boca. Cara de quem fez coisa errada. Achava que ia levar bronca. “Nicole, você quer ser uma menina mais linda do que já é?”, perguntei ansiosa pela sua reação.

Um sorriso se abriu lentamente. Os dentinhos para frente provavam o uso excessivo de chupeta. Percebi o interesse de Nicole no brilho de seus olhos. “Então… Sabia que comer cenoura e batata faz a pessoa ficar mais bonita?”, continuei. Sua expressão facial mudou. Assustada. Arregalou os olhos. “E faz você crescer bastante!”, percebi que estava dando certo.

Nicole ficou tão entusiasmada com o que acabara de descobrir que se levantou. Ficou em pé na cadeira. Colocou as mãos gordinhas no meu rosto. Uma em cada bochecha. “Tia, eu quero ficar grande igual você!!!!”. E deu um sorriso sincero. Sorri de volta. “É? Então, Nicole!!! Vamos comer!”.

A pequena menina virou de frente para a mesa. Com pressa. Agarrou a colher e mergulhou na sopa. Começou a comer com vontade. Uma colher atrás da outra. Mariana e João que estavam próximos estavam atentos à nossa conversa. “Tia, eu também vou comer!!”, gritou Mariana para mim. Ela e João começaram a comer assim como Nicole. Rápidos. Havia ali uma competição oculta de quem terminaria primeiro.

A partir desse dia, todas as terças e quartas-feiras que serviam sopa, usava a mesma tática. “Ué, você não vai comer a sopinha? Esqueceu que, se você comer vai crescer e ficar bonita?”, ou “bonito” no caso dos meninos. As crianças se rendiam. Todos queriam garantir sua beleza. E para motivá-los, também saboreava a sopa na minha tigela amarela.

Nicole mal sabia que eu tinha apenas 1,54cm de altura. Ainda tenho, na verdade. Mas ela queria ser alta igual a mim. Hoje, Nicole provavelmente tenha uns 10 anos. Talvez nem se lembre dessa situação. Mas com certeza come cenouras e batatas. Graças à sua ingenuidade. Graças à sua infância.