Pobre produtor. Produzir, hoje, é um martírio. Um sacrifício. Mais vale, hoje, um Facebook bem atualizado, um Twitter com seguidores, um Snap, um celular na mão, uma cadeira desparafusada, uma mesa, um computador e dedos. Qualquer coisa. Todos valem mais que o produtor.

Ele fica à deriva. Jogado sob a própria sorte. O de soja, ou de poesia. De música, ou de riqueza. Tanto faz. O produtivo é não produzir. Ou melhor, produzir a partir do trabalho do produtor. Gênio.

Coitado do produtor, ainda não entendeu como se faz . Os novos tempos. Ainda não entendeu.

Basta observar. Os inquisidores com espinhas no rosto e óleo nas mãos não perdoam. Jamais. Eles tem o google. Eles tem tudo. De Tchekhov à novela das oito. Eles sabem tudo. Vão julgar, maltratar, estigmatizar. É. Não perdoam.

Diante do mesmo Facebook, o produtor, hoje, assiste boquiaberto ao espetáculo feudal. Vê a fila se movendo. teme chegar a sua vez. E ela vai chegar. Seu conteúdo, irá chegar aos olhos deles. Olhos redondos. Gigantes. Que não dormem. O produtor vai queimar.

Reacionário. Comunista. Gayzista. Sua trama é ultrapassada. Caduca. Presa no século passado. Pelo amor de deus, que merda é essa, caro produtor? Você não leu nossa cartilha? Pelo amor de deus. De Deus!, exclamam furiosos os inquisidores.

Uma percepção de vida traçada por máquinas. por algoritmos. Nem precisa sair do quarto. Do ar condicionado. Simples: ideologia de gaveta. De máquina. E ele, nosso pobre produtor, que sempre foi acostumado a andar do lado esquerdo da avenida, desde os tempos de escola, fica confuso. Entra em parafuso.

Pobre produtor. Deu azar. Nasceu nos tempos em que todos vigiam. Nos tempos dos inquisidores. Logo agora, produtor. Coxinha. Fascista. Petralha. Pedante. Pseudo produtor. Retardado. Burro. Analfabeto. Ah, vai pra cuba! Golpista!

Os inquisidores, eles mesmo, não perdoam, jamais, todos erram, menos eles. Eles ditam as regras. Escrevem a cartilha. Eles não perdoam, aliás, por que deveriam?

Sabem, dominam, fazem de tudo. São inteligentes, perspicazes. Sem erros. Sem deslizes. Tudo de acordo com a direita. Tudo de acordo com a esquerda. Sempre. Pobre produtor. Ainda não entendeu. Só ele ainda não virou um algoritmo, coitado.