Ia do nada para lugar nenhum. Não tinha Rg. Nem nome, ou pelo menos não conseguia se lembrar do seu. Sabia de onde tinha vindo: dali mesmo. Sabia que algum dia tinha sido algo para alguém, mas não se lembra para quem. Não tinha lugar para morar. Não tinha pessoa para falar. Não tinha onde trabalhar. Vivia, mas não vivia. Apesar de ser desconhecido, todo mundo no bairro sabia quem ele era.

Estava alheio. Alheio a inflação. Alheio à alta do dólar. Alheio a crise política, e a corrida eleitoral daquele ano. Não tinha casa, mas tinha um lugar. Era o seu lugar. E por ali lutava com todos os outros homens que, igual a ele, vinham do nada para lugar nenhum.

Estava sempre no seu lugar. E dali mesmo, observava cada personagem de sua cidade. O homem de terno falando no celular, apressado, tropeçando nos próprios passos e na existência. A mulher sonolenta de fones no ouvido. O menino ansioso de mochila nas costas. A mulher pintada que estava sempre a discutir com seu ego.

Como um homem alheio, acordava de seu sonho e caía no nada. Desatava a andar em algum lugar. Procurava por comida, pedia para um, para um lado, pro outro. Desistia. Mas, logo em seguida, lembrava que todos os homens alheios a tudo dessa cidade não podiam desistir, se desistissem caíam em tudo.

Desatava a andar. Até que, enfim, encontrava algo para cobrir o vazio.  Logo após essa peregrinação miserável, voltava para seu lugar. E lá ficava. Não tinha no que pensar, então não pensava. Às vezes lhe vinha à cabeça o que toda essa gente tinha a lhe falar. Sabia que eles tinham consciência de sua sobrevivência. Sabia que eles o olhavam de cima a baixo. Só. Não sabia mais de nada.

Outras vezes, raras, esforçava-se para lembrar do nada que vinha antes desse nada. Certa vez, lembrou de uma personagem. A figura de uma fêmea. Não lembrava da sua voz, nem de sua aparência. Nada.

Logo após esses pensamentos, se sentia exausto de não fazer nada. Desatava a andar. Em sua busca, por vezes, encontrava uma fêmea. Parecida com ele. Nada. Ela estava ali em um outro lugar, um lugar que não era o dele. Era o lugar dela. Talvez ela fosse nada também. Ele não sabia. E não queria saber. Só sabia o que sentia. E quando a avistava naquele lugar, deitada, em trajes sujos iguais os seus, mínimos, deixando à mostra o seu corpo magro. Raquítico. Ele sentia algo, era o único momento que sentia. Um desejo enorme de ficar em cima daquela fêmea. Mas, apesar disso, continuava. Estava fraco, na havia como fazer aquilo. Acostumado em não realizar, ele desatava a andar e deixava aquele ser ali.

Por vezes, encontrava um lugar. Era um lugar coberto, cheio de luzes que deixavam nítidas os excessos de toda aquela gente. Tudo estava exagerado ali, a comida, que ele mendigava, as pessoas, que ele não conhecia, as conversas, que ele não entendia, as gorduras, que ele não possuía. Olhava atentamente através do vidro, cada movimento. Não entendia as conversas, as risadas, as falas, simplesmente não entendia.

Continuava. Sem nada. Vivia assim. Vivia para observar aquelas pessoas que, com certeza, tinham algo. Eles estavam ali, mas não estavam. Sem história, sem vida, sem nome. Não era nada. Até que um dia, esse dia sempre chega, foi algo. Tinha nome. Teve voz. Aquelas pessoas, aterrorizadas, o observaram. Com temor. Com nojo. Com raiva. Tiraram fotos. Fizeram vídeos. Riram. Gritaram. Esfaqueado por roubar nada. Um pão. Um leite. Uma bolsa. Era um corpo, mais nada. Sem RG, sem nome, nada. Um dia ele não estava mais ali, em seu lugar. E nada mudou. As pessoas, os celulares, os fones de ouvidos. Ele finalmente desatou a andar. Do nada para a morte.

(foto: http://www.apenas1.wordpress.com)