Maracanã lotado. A cor amarela toma conta da arquibancada. É Brasil x Alemanha. A apreensão está presente no estádio. É final das Olimpíadas. Será que o ouro inédito finalmente vem? Seleções em campo. Todos se levantam. Silêncio. O hino nacional começa a tocar. Todas as vozes cantam juntas. Vibrações que chegam ao gramado.

Terminado o hino, os times se posicionam em campo. O juiz apita o começo do jogo. Bola rolando. Em poucos minutos, já é possível ver a forte marcação da Alemanha. Dificuldade para o Brasil armar jogadas. Ninguém disse que a decisão seria fácil. Da arquibancada, os assíduos já têm os gritos na ponta da língua. Xingam o juiz quando não concordam com o apito, gritam para o jogador que se perde na jogada e cantam em apoio à seleção brasileira.

Quem está num jogo pela primeira vez se assusta. Olha de lado para os que xingam. Desaprova tal comportamento, mas se mantém concentrado no jogo. A zaga alemã recua a bola para o goleiro, que chuta a bola para o ataque. O Maracanã grita “BICHA!”. É difícil de acreditar. Mas basta se concentrar para ter certeza do que a torcida diz.

Alguns minutos depois, numa tentativa de abrir o placar, Neymar finaliza a jogada e a bola passa longe do gol. O juiz apita. É tiro de meta. Na cobrança do goleiro alemão, as vozes ecoam novamente: “BICHA!”. O grito vem de um mar de torcedores. São poucos os que ficam quietos. Estes, incrédulos, se perguntam o porquê isso acontece.

Talvez o goleiro alemão nem perceba. Provavelmente nem compreenda o português. Mas não é um empecilho para maior parte da torcida brasileira presente no Maracanã. Ela é pontual. Não perde uma. O goleiro adversário chuta a bola e a palavra “BICHA!” emerge com fervor. Ato bem comum no futebol brasileiro. A torcida faz isso para provocar. “É só uma brincadeira”, com certeza dizem.

Mas a “brincadeira” esconde a homofobia presente no esporte. Não é novidade. O futebol representa a família tradicional brasileira. Ele discrimina. Discrimina, porque é um esporte feito para homens e para ser assistido apenas por homens. Richarlyson sofreu com “piadas” durante toda a sua carreira. Sheik foi alvo de preconceito quando postou uma foto dando selinho em um amigo no Instagram. Quando descontente com o juizão, a torcida canta: “Juíz, viado!”.  Os são paulinos levam as “brincadeiras” como rotina.

A torcida acha que ofende. Trata como se fosse um xingamento. Da mesma forma que chama o juiz de “filho da puta” também o chama de “viado”. Tornou-se um vício. É corriqueiro. O grito “BICHA!” soa pelo estádio inteiro como algo natural. E quando podem, exclamam aos berros: “Seu viado!!”. Pronto. Mudam a gramática. Transformam um substantivo num adjetivo.

Muitos que amam futebol, talvez, nunca pensaram sobre o assunto. Outros, com certeza, alimentam propositalmente o preconceito já existente. Uma pena que abolir de imediato as provocações e brincadeiras mascaradas de homofobia seja uma utopia. Uma pena que o futebol ainda não seja, de fato, um esporte para todos. Uma pena.

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