No meio de uma fila cansativa, um desaforo. Dois puxões. Pra um lado, pra outro. Nada mais estranho e que cause mais fadiga que as pessoas. Projetos não alcançados. Vidas secas. Rastejam-se de um lado para o outro. Sem nenhum fim. Eu não acredito na sociedade. Apesar de encantar-me com ela. Pra um lado, para o outro.

Os aeroportos. Eles foram filha da puta em fazer isso. Aquele saguão infinito. Limpo. Cheio de cor e vida. Pulsante. Lojas para todos os lados. Cheios de opção. Nos sentimos tão importantes naquela merda. Cada um com a sua urgência. Preparando-se para ir a algum lugar. Com suas bagagens cheias de lixos e desilusão. Preenchemos nossas malas com merda, a ponto da moça do guichê entrar em desespero. Para preencher uma urgência. A porra de uma urgência.

Finalmente sentamos no avião. Os funcionários da companhia, sorrindo, chamando crianças de seis anos de senhor. São uns hipócritas. Cospem nos nossos cafés. Mostram o dedo atrás daquelas cortinas. Fazem suruba silenciosamente no interior da aeronave. São uns hipócritas. Servem café frio. Brincam de arremesso com as malas. Mexa em qualquer coisa, meu senhor, menos nas malas de nossa classe. As malas da existência.

Somos invencíveis em um aeroporto. Não há células cancerígenas que nos corroem. Não há fome na porra do mundo. Não há. O aeroporto é o estopim da nossa espécie. É uma merda, todo mundo concorda. Mas pagamos para estar lá. Pagamos para cuspirem nos nossos cafés. Para ficarmos estirados por duas horas na fila. Para comer comida fria. Perguntarem para onde vamos. Pra que? Para sair com joelhos ralados pela poltrona da frente. Pagamos, somos uns merdas.

Um dia, em um aeroporto, enquanto todos estavam vivendo sua urgência, um homem velho, com hálito de pinga, mas com um terno bem arrumado e com um cabelo lambuzado de gel, me disse que eu era revoltado demais. Que falava besteiras demais nos meus textos. Ele me olhava com uma espécie de rancor mal resolvido. Dizia-me que eu parecia um adolescente revoltado. Mimado. Nada lhe respondi.

Os escritores são os aeroportos da sociedade. Jorrar merdas nos jornais, nas revistas, lançar livros, achar-se superior por encantar as pessoas com besteiras. Grande merda. Os escritores gostam de apontar o dedo bem na fronte das faces alheias. Cagam regras. Gostam de falar sobre como possuem uma percepção superior sobre coisas banais, como aeroportos. Falando mal da maravilha da civilização. Eu, aqui, sentado, achando que as pessoas também não me acham um merda por sentar e escrever essas coisas. Somos os aeroportos da humanidade. Quem poderia imaginar?

Pode haver células cancerígenas corroendo minha existência nesse exato momento. Agora. Foda-se. Eu vou embora, os aeroportos vão ficar. Os quadris enormes, cansados, espremendo-se em filas e aviões. Que inclusive, pode cair. O senhor com bafo de pinga tem razão. Pareço um adolescente de merda. Merda. É a minha vez. Um café, por favor.

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