Corria sempre na mesma direção. A rotina de Ricardo era cansativa. Ansioso, colocava-se sempre na mesma posição. Jogava a mochila na cama e fitava um ângulo da calçada. Lá ficava. Às vezes horas. Alguns dias, minutos. Quando teve sorte, só por alguns segundos. Hoje teve azar. Nada encontrou. O olhar, cada vez mais desanimado, ia perdendo o brilho. De canto de olho, espiava a hora. Começava a desacreditar. Perdeu as esperanças quando sua mãe lhe chamou para almoçar. Desistiu.

Descia as escadas, com os ombros inclinados para frente, passos lentos, expressão cansada, quase sonolenta. Sua mãe nada percebeu. Nunca percebia. Mexia seu enorme quadril na cozinha quando ele chegou. Era uma mulher de meia idade, corpulenta, com os olhos redondos como o rosto. Sempre na cozinha, de costas para seu filho, ela tacava o prato de comida na mesa e lhe dizia:

– Coma, um dia você terá que crescer.

O prato não animava o garoto. O bife de fígado, enrugado, adormecido, não lhe parecia saboroso. Enquanto sua mãe berrava no celular e equilibrava panelas na pia, o menino comia. Os almoços, há tempos, eram silenciosos. Os diálogos, geralmente eram limitados a frases soltas, entre uma ligação e outra de sua mãe. Frases desinteressadas sobre o cotidiano do garoto na escola.

Ficamos assim com o tempo, tendemos a acreditar que as pessoas que estão próximas a nós sempre estarão lá, imutáveis, a nosso bel prazer. No meio da nossa essencial existência, da incompreensível importância que damos a nós, existe um espaço pequeno para os outros. Inclusive aqueles que mais amamos.

O menino lutava para engolir aquele odioso bife. A poça de óleo em seu prato o repelia mais ainda. Sua mãe continuava berrando no celular. De repente, ela senta ao lado dele na mesa. O olha rapidamente, ensaia uma conversa, mas seu celular toca. Desiste. Em quase todos os dias o menino não sente falta de conversar com a sua mãe. Mas aquele era diferente, não teve sorte. A janela não o ajudou. Entre as falas beirando o desespero de sua mãe, tenta imaginar o que deu errado dessa vez. Nos últimos dias, aquela janela sempre o favoreceu. Tinha lhe dado sorte.

O menino era viciado em sorte. Falava tanto dela que sempre irritava a sua mãe. Dizia para ela não ficar de costas para ele sempre, isso não dava sorte. Brigava quando ela pisava na rachadura de alguma calçada ou combinar xadrez com listras, sua mãe já não tinha paciência para as suas crendices juvenis.

Seu pai que lhe ensinou o que era sorte, o ensinou para sempre ter um objeto da sorte em mãos. Na última vez que viu seu pai ganhou um chaveiro, desbotado, com dois círculos de metal, entrelaçados, seu pai disse que era o objeto dele. O pai foi. O chaveiro ficou. Pensou que aquele chaveiro não tinha lhe dado sorte, porque depois que passou a acompanhá-lo nunca mais tornou a ver seu pai. E seu pai lhe fazia falta. Sua mãe mudou depois disso. Ficou amarga como café amanhecido. Agora ela vivia berrando no jantar e maldizendo seu pai. Que era um cachorro, segundo ela. Ele não achava nem um pouco parecido. Sem pai, nem mãe, só tinha sobrado para o garoto a janela.

Terminou de comer seu fígado e subiu. Sua mãe já não berrava mais no celular. Mas balbuciou frases soltas, colocando a prova sua consideração por ela, pelo menino não ter lavar a louça.

– É um parasita.

Ao subir as escadas em caracol de sua casa, Ricardo emite alguns sons em monólogo. Castiga-se por ter chegado tarde a janela hoje. Seu quarto era um amontoado de bugigangas. Sua cama, sempre desarrumada, trazia algumas manchas suspeitas no edredom. Recortes de jornais e revistas escondem as infiltrações da parede. Uma mesa, cheia de gibis e cadernos rabiscados, preenchia aquele pequeno espaço que ele passava quase todas as horas do seu dia. Não era chegado a nada, como sempre dizia. Não tinha desenvolvido gosto pela arte, nem tinha talento para os esportes. Ficava sempre ali, na janela de seu quarto, buscando algo. Incompreensível.

Sua vida na escola não era muito diferente. Ficava pelos cantos. No intervalo sacava um gibi do bolso e descansava os olhos sobre ele. Não lia. Mas era algo para não acharem ele uma aberração. Aqueles que, um dia, há muito tempo, já foram seus amigos, hoje o ignoravam. Não que tiravam sarro dele, só não o notavam. O que, talvez, fosse pior. Durante as aulas nunca se manifestava, sempre se esquivava dos olhares dos professores. O que, com certeza, era pior. Ricardo passava seus dias assim, ia da escola para a casa. Da casa para a janela. Lá torcia para não ser tarde demais. Quando não era, sorria. Quando era, ia almoçar com o olhar distante. O menino não era notado por ninguém. Ninguém o notava.

Sua aparência condizia com a sua personalidade, era mirrado, estava sempre com uma camiseta estampada surrada em seu corpo franzino. Seu tênis, já falantes de
tão gasto, mostrava certa displicência materna, a calça desbotada e o cabelo desgrenhado, pedindo um corte, fechavam sua melancólica existência.

A visão que tirava da janela era como uma fotografia na cabeça do menino. A rotina já durava anos. Até sua mãe já havia percebido que o menino ficava ali, sempre na mesma posição. Porém, suas tarefas sempre a desviavam a atenção. Nada o tirava dali. Algo o preenchia quando ele sentava. Algo o deixava, como nunca, feliz. Só o cansaço o ganhava. Quando já estava com seus pés dormentes, sua cabeça latejando, seus olhos involuntariamente fechados, ia para a cama. Tinha sempre o mesmo sonho. Aquela visão. Aquela janela. Ela finalmente se abria. Ele sentia o vento bater em sua face. Ficava imóvel. Sentia-se feliz.

Ao acordar, era como se levasse um soco da realidade. Olhava ao redor de seu quarto. Ouvia os passos de sua mãe pela casa. Morria. Fechava os olhos novamente e suspirava profundamente. Não podia acreditar. Estava acordado. Teria que ir à aula. Voltar correndo e esperar pelo milagre. Voltaria para a sua janela. Sua mãe o acordava aos berros. Agitava os braços gigantescos enquanto apressava o menino. Ele olhava para a janela. Começava a pensar naqueles segundos de euforia que sentia na janela. Sentia-se renovado. Levantava de sua cama e a olhava. Ela ainda não estava lá. Mas, a tarde estaria. Ontem não teve sorte. Hoje terá.

(foto: www.meninolit.blogspot.com.br)