Um cadeado desproporcional envolvido por uma grade enferrujada protegia o local. O portão, pintado de um azul claro maltratado pelo tempo, não transmitia muita segurança. “MARL: Movimentos dos artistas de rua” lia-se em um pano encardido pendurado como uma bandeira nacional  logo na entrada. Nada se via. Apenas ouvia-se uma canção leve, serena, que ecoava para fora, em direção à avenida Duque de Caxias. Era uma tarde serena de sábado. Poucas pessoas, muitos carros.

Ao tocar a campainha, uma engenhoca improvisada, um homem um pouco acima do peso, de meia idade e cabelos desgrenhados, alegrou-se com a visita, como se fosse algo esperado. Com um sorriso espalhado no rosto, disse “Percebi os pezinhos se mexendo no portão”, indicando que a campainha falhou em sua missão.

O clima era de festa. Vinte cadeiras de plástico formavam, com alguma linearidade, uma meia lua.  No centro, três mulheres vestidas totalmente de preto, contavam uma história. A menina Abóbora. A plateia participava do espetáculo a cada respiração das artistas. Animados, tentavam adivinhar com afinco o destino do ser que não era nem menina, nem abóbora. Entre crianças e jovens adultos, os sons de risadas se confundiam com o barulho dos carros que passavam a cada minuto e a fala das atrizes.

O pátio do local tem ares de abandono. Bugigangas decoram o ambiente por todos os cantos. Garrafas. Sacos Plásticos. Montanha de cimento. Embalagens de alimentos. Cores. O cheiro era pulsante, invadia as narinas e impregnava na alma. As cores também chamam a atenção, são dizeres em forma de protesto por cada centímetro da parede mal rebocada. Arte Abstrata.

Durante a apresentação do grupo teatral Kiwi de Jaqueta, a movimentação é intensa. Pessoas que andavam de um lado para outro, como que preparando um grande evento. Quase invadindo o centro da roda, um menino, em pé, de sandálias encardidas e bermuda abaixo dos joelhos, gritava, pulava, se exaltava, quase que dirigindo o espetáculo e o andamento da história. Havia doze pessoas. Dez adultos. Um bebê de colo e o “diretor”.

Em um determinado momento do enredo, a menina abóbora quer voar, é o grande final. Liberdade. A mais jovial do trio de atrizes levanta-se e saca uma espécie de cano amarelo e o gira em uma velocidade colossal por vários minutos. Faz o ruído do vento. Seu corpo esbelto se contorce e suas mãos fazem um movimento giratório que corta o ar. Nesse exato momento, um vento inexplicável surra as faces dos espectadores que, admirados, olham, sorriem e se transformam em dez crianças em uma roda. Seus olhares de admiração com a ajuda da natureza para fazer a abóbora voar renovam suas almas. Terminam o show extasiados. Liberdade.

Isso é tudo que os movimentos de artistas que estão na ocupação do antigo prédio do ULES desejam. Organizados em comissões, eles lutam para “criar” uma sociedade ativa no local. O prédio está abandonado há dez anos. A ação busca um diálogo com a prefeitura para ocupar o lugar permanentemente e mantê-lo ativo.

Com o fim do espetáculo, iniciou-se uma espécie de entrevista com as artistas. Sentaram-se as três e ouviam as dúvidas dos espectadores. Quem teve a ideia da “entrevista” inesperada, foi um homem com uma calvície galopante, com a pele curtida de sol, inquieto, que usava uma camiseta amarela desbotada e um shorts de andarilho. Fábio José, ou Olifa Ollon, seu nome artístico, é o mais animado da roda. Das seis perguntas feitas para o trio, antes da conversa descambar para a informalidade, três são dele. De sorriso fácil, mostra ansiedade até para explicar seu nome “Com dois L em Ollon por favor, publiquem assim.”

Ao seu lado na roda estava Rafael Avansine. O homem é a antítese de Ollon. Traz os fios louros jogados para o lado na cabeça. Um sorriso fácil e olhar atento, mas nunca disperso. Todos que passavam o cumprimentavam. E ele falava pontualmente para demonstrar satisfação durante a entrevista.

O lado de dentro do prédio assemelhasse a uma fábrica abandonada. As cores que enfeitam o pátio desaparecem. Logo na entrada, uma mini biblioteca foi montada. Alguns livros em um longo banco feito de madeira. Há também uma cozinha improvisada em um dos cômodos. Tudo é de um marrom que sobe pelas paredes e impregna a vista. Torna-se noite. Três barracas de acampamento e alguns colchões esparsos pelo grande galpão indicam moradia provisória. A iluminação do sol vai perdendo força à medida que chega-se ao fundo do prédio. As janelas quebradas permitem que o vento invada o local e refresque o calor abafado que fazia.

Olifa e Rafael sentam-se em linha vertical, como se fossem prestar depoimento um para o outro. Se atropelando na fala, eles explicaram o porquê da escolha do prédio para a ocupação “A gente cobrou da prefeitura por bastante tempo uma listagem dos espaços ociosos para a cultura, para os artistas e essa lista não vinha. Então decidimos fazer a ocupação para fomentar o dialogo. A ocupação é a proposta de um novo modelo de vila cultural, onde os coletivos da cidade vão ter a oportunidade de ocupar um lugar ocioso para fazer arte.”

O ano é estratégico. Em dois meses irão ocorrer às eleições municipais. Tudo mudará. Como o atual prefeito, Alexandre Kireff, anunciou que não irá participar da disputa, a cidade terá administração nova. Ao falar das eleições, o rosto de Olifa ganha um ar sério pela primeira vez  ”O mais legal do movimento é que ele é suprapartidário. As pessoas aqui já tem suas preferências, suas ideologias, sabe pra quem dar seu voto, não vamos fazer campanha para ninguém. A ação em si já é política. Fazemos campanha par a arte. Só. A gestão que vem tem que abraçar o que está sendo feito aqui.”

O coletivo é o que marca o movimento. Rafael é membro da companhia teatro de garagem, famosa na cidade, além de fazer partes de outros coletivos. Olifa não fica para trás, ele é membro da Cia Curumiaçu de teatro. Tudo é compartilhado no cotidiano das pessoas que ficam no local. Comida. Vigílias. Fogo. Descansos. São aproximadamente dez pessoas fixas para as moradas.

 Essa organização não veio de repente, o grupo precisou aprender a organizar uma ocupação territorial “Veio uma professora da UEL e nos falou sobre uma ocupação na Espanha. Precisamos aprender essa lógica. É uma coisa nova para todo mundo. Aprendemos que as pessoas que fazem parte precisam voltar pra casa, descansar, tomar banho e depois voltarem. Tem gente que vem direto do trabalho, outros vem de final de semana, a nossa vida continua”. O movimento preferiu se organizar em comissões para facilitar o ato, “A gente se organizou em quatro comissões: segurança, jurídico, programação cultural e infraestrutura. Cada um tem sua função dentro do movimento.”

Na hora de falar dos avanços, a dupla aumenta o tom de voz, ajeitam-se na cadeira quase que simultaneamente e falam com uma voz declamatória que estão avançando, “Não é só a vinda do prefeito que é um avanço. A comida que recebemos, a luz elétrica que conseguimos, a água encanada, as doações de todos os tipos, tudo é uma força para a gente continuar. Toda ajuda é força.”

A proposta é democratizar a arte. Criar um espaço para que as pessoas possam expor sua arte, seja ela qual for. E o movimento não pensa em parar por ai “Há muitos lugares ociosos na cidade. Não vamos parar, quando acabar aqui, temos outros para ocupar. Outro. Mais outro.” Ao falar do futuro, Olifa sonha com os olhos. Sua retina encha-se de brilho e sua voz ganha tom professoral ao explicar o que visualiza “Sonhando bem alto, eu queria era tirar esse muro. Transformar isso aqui em uma praça aberta, para a arte, para as pessoas, para a cidade.” Enquanto o sonho não vira realidade, o movimento tem planos para o prédio depois da ocupação “Vamos escrevê-lo no Promic (Programa Municipal de incentivo a Cultura), devolvê-lo para a cidade. Manter o prédio ativo, com uma programação cultural ativa. Como já estamos fazendo agora.”

Entre falas animadas vindo pátio e o som da risada de Olifa, um raio solar inesperado invade o local. Ao abrir o portão enferrujado novamente, a mesma rajada de vento surra o rosto dos que ficam na ocupação. Uma lona, mal amarrada, quase se desprende e voa pelos ares. As pessoas sorriem. Olifa já se ocupa de outra tarefa. Rafael volta seu olhar para uma nova conversa. O portão abre e fecha. O vento ecoa.  Ali, a cidade ganhou um novo espaço. Um espaço ocupado. Liberto.

Serviço: A ocupação aceita qualquer tipo de doação. Principalmente alimentos é só comparecer no local e entregar para os organizadores. (Av. Duque de Caixas, 3241)