Qual dever ser a análise da imprensa após o jogo da Seleção Brasileira Masculina de Futebol, no qual o Brasil venceu a Dinamarca por 4×0, em partida válida pela 3ª rodada da fase de grupos das Olimpíadas?

Foi o que me questionei logo após o apito final da partida.

Questionamento que surgiu em virtude da partida de domingo contra o Iraque, onde o Brasil não passou de um empate em 0x0, assim como na primeira rodada, contra a África do Sul. O resultado fez com que o time saísse de campo sob muitas vaias dos torcedores e em silêncio total.

Ainda naquele final da noite de domingo, fortes críticas à postura dos jogadores, ao mau futebol apresentado em especial pelo capitão Neymar, foram feitas pelos diversos programas esportivos, jornalistas, comentaristas, especialistas e repórteres. Uma enxurrada de críticas foram lançadas sobre a seleção tupiniquim.

Críticas que continuaram sendo dirigidas à equipe do Brasil até o momento em que marcou o primeiro gol contra a Dinamarca, anotado por Gabriel (Gabigol).

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Primeiro gol do Brasil marcado por Gabigol. (Foto: Lucas Figueredo/MoWa Press)

A partir daí, o discurso foi mudando, os críticos foram se calando, a esperança renovando. Mais gols foram saindo e a desconfiança também. Até elogios vieram…

“Enfim o Brasil jogou seu futebol. Neymar não marcou gol, mas jogou como um verdadeiro líder”.  

“Gabriel Jesus só não fez milagres como seu xará (Jesus Cristo)”.

“Gabigol, como o apelido já conota, foi o artilheiro da partida, marcou dois gols”.

“Luan que entrou no lugar de Felipe Anderson, mudou a cara do time em campo”.

“Renato Augusto voltou a ser aquele Renato do Corinthians. Comandou o meio de campo”.

“Enfim, Micale acertou o time rumo ao ouro inédito!”

Isso e muito mais pôde ser ouvido por quem acompanhou o jogo seja pela Rede Globo, pelo SporTV, Espn, Bandeirantes ou Record.

Nem pareciam os mesmos que passaram dias criticando a seleção!

Ao escutar cada um dos elogios fiquei me questionando: Será que só eu que não vi tudo isso? Ou sou pessimista demais quanto à seleção?

Por que a imprensa tenta apagar uma imagem que ela mesma contribuiu para construir? Em troca do quê?

Noventas minutos são capazes de apagar completamente os mais de duzentos que o Brasil ficou sem marcar um gol sequer nas Olímpiadas?

Quatro gols contra a Dinamarca são suficientes para devolver ao Brasil a esperança da conquista do inédito ouro olímpico no futebol masculino?

Será que agora vai?

Como bom torcedor e como futuro jornalista exclamo:

Tomara que não ganhe esta medalha de ouro!

Não, eu não torço contra o Brasil, como muitos fazem.

Apenas não me iludo com resultados esporádicos como este contra a Dinamarca.

A mudança no futebol brasileiro sempre ficou escondida atrás dos resultados do time em campo, que camuflam a podridão na CBF. Que põem debaixo do tapete, a falta de investimentos nas categorias de base. Falta de apoio ao futebol feminino, que mesmo tendo uma jogadora como a Marta, cinco vezes a melhor jogadora de futebol feminino do mundo, vive a míngua de ligas amadoras, falta de patrocínio. Sem falar no preconceito.

Mudança no futebol que mesmo após o vexatório 7×1 contra a Alemanha na Copa do Mundo de 2014 não deu nenhum passo. E talvez a gota d’água para que uma reconstrução no nosso futebol aconteça, passe por mais um vexame dentro do campo, e novamente no nosso país.

Embora o futebol não resolva os problemas do país, resolver os problemas do futebol, uma das maiores expressões culturais e esportivas do Brasil, pode significar o início de uma mudança que extrapole os limites das quatro linhas. Fazendo do futebol, assim como todos os esportes, um meio eficaz de transformação da sociedade. Tirando do crime, das ruas, do ostracismo, milhões de crianças, jovens e até mesmo adultos que vivem perecendo por falta de expectativa e oportunidade.

Esta conquista valeria muito mais do que uma medalha de ouro!

Imagem em destaque: Fernando Donasci/Reuters