De segunda a sexta das 11 às 13, aquela calçada da região central da cidade se torna um local de descanso. Homens de idades variadas usufruem das sombras projetadas pelas árvores. Sentam-se no chão. Alguns se encostam ao portão. Outros, sem medo de atrapalhar a passagem de pedestres, se esparramam de barriga para cima pela calçada. Em meia hora, é possível contar 7 homens. Cada um traz a sua marmita. Almoçam ali mesmo. A calçada, mesmo esburacada, parece confortável para eles.

Suas vestes azuis e cinzas sujas de tinta e botinas lambuzadas de cimento não mentem. De frente com essa calçada existe uma obra. Um prédio quase finalizado ilustra a paisagem defronte. Há meses está em construção. Aqueles homens, todos os dias, no mesmo horário, acomodam-se ali. Na hora do almoço, são eles que tomam conta da calçada. Aglomerados em uma roda, conversam alto e soltam gargalhadas. Em pouco tempo, uma mulher surge na esquina descendo em direção a eles. Quando avista o grupo de homens, apressa os passos.

Sozinha, traz consigo sacolas de supermercado. Carrega uma aparência de 35 anos, cabelos escuros e presos. Esconde sua barriga avantajada e seios fartos com uma camiseta preta.  Suas coxas grossas e quadril largo vestem uma calça jeans folgada. Chega à roda de trabalhadores. Silêncio. É obrigada a desviar dos que estão deitados e pular as pernas de quem está sentado. Os rostos dos homens expressam malícia. Trocam olhares e risadas baixinhas. Um deles observa a moça pelo canto do olho e sorri pelo canto da boca. A frase “Ô, lá em casa!” é dita por duas vozes diferentes. A mulher fica visivelmente constrangida, mas não mostra força ou coragem para retrucar. Eles são muitos e ela, só uma. Apenas continua seu caminho para casa.

Os homens observam a mulher se distanciando. Alguns até se levantam para olhar. Outra moça que vinha subindo, percebe a presença deles. Na hora, decide atravessar a rua. Não pensa duas vezes. Sob o sol escaldante, uma camiseta regata se ajusta ao seu corpo esbelto. E a calça jeans molda as suas pernas magras. A adolescente faz este percurso todos os dias e só passa por aquela calçada quando está vazia. Raramente está.

Quando chega à calçada oposta onde estão os pedreiros e serventes, a jovem, de imediato, abaixa a cabeça. De alguma forma, se sente acanhada. Mesmo sem ouvir assobios. Mesmo sem ouvir “cantadas”. Por um momento, pensa em olhar para o outro lado da rua. Mas desiste. Mantém sua cabeça abaixada. Apreensiva, torce para que não esteja sendo observada. Com passos rápidos, chega à esquina e, ainda amedrontada, continua seu trajeto.

Enquanto isso, os homens voltam à rodinha de amigos. Batem a mão no peito. Orgulhosos de si mesmos. Sentem-se machos de verdade. Sempre que cruzam o caminho de uma moça bonita é difícil. Dizem que não dá para evitar o olhar. E tentam justificar falando que é da natureza do homem. Todos são assim. Olham para o relógio. O almoço acabou. Está na hora de voltar ao trabalho. E como outro dia qualquer, se levantam e atravessam a rua. A calçada fica vazia. Vazia para quem quiser passar.

Crédito da foto: edivaldojunior.com.br