“Quando deito na cama pra dormir, enquanto toda a cidade se silencia, pareço ouvir dentro de mim, ao longe, aquele sino anunciando a chegada do trem”, conta o sr. João Antônio ao se recordar dos anos de duro trabalho em terras londrinenses.

E hoje, quase cinquenta anos depois, parece soar estranho o contar da história de um antigo e agora aposentado cargueiro de trens. Enquanto livros e jornais relembram e fazem memória dos importantes nomes daqueles que por aqui passaram, histórias de pessoas simples, que muito contribuíram para o crescimento de Londrina são aos poucos esquecidas e enterradas juntas aos seus personagens.

67 anos e muita história para contar. João Antônio dos Santos veio para o norte do Paraná ainda criança, com cinco anos de idade. Os pais, cansados da dura vida que levavam no interior carioca, decidiram sair em busca de melhores condições de sustento e trabalho. Nova Fátima, Primeiro de Maio, Loanda e, por fim, Londrina foi a última parada da família em busca de certa esperança pela vida.

“Foram anos muito difíceis”, relembra Sr. Antônio, “viemos sem nada, e tínhamos apenas as roupas do corpo e alguns sacos de feijão que trouxemos do nosso último trabalho no patrimônio de Loanda”. Nos primeiros dias em Londrina, saiu de porta em porta nas poucas empresas existentes por aqui na época em busca de emprego. Na mesma sequência a rejeição se fazia, uma por uma. Hora por não saber ler e escrever. Hora por não ter experiências profissionais registradas. Até que um dia conseguiu. E no auge da soja e do café, fez durante muitos anos o serviço braçal de carga e descarga das dezenas de vagões de trens de ferro que por aqui passavam.

“E foi assim que criei meus cinco filhos, todos na base do pouco que ganhava na labuta diária”. A primeira mulher, falecida aos 25 anos de idade e apenas cinco de casados, lhe deixou três filhos. Anos depois, encontrou a que mais tarde tornou-se sua segunda e última esposa, com quem teve mais dois filhos e 31 anos de casados. E os relatos de dificuldades enfrentados ao longo da vida são inúmeros. Fome. Falta de recursos para comprar sequer o necessário. Trabalho incansável. Miséria financeira mas jamais espiritual.

“Era um dia como hoje, nem gosto de lembrar…”, e com lágrimas nos olhos recorda o dia em que se acidentou trabalhando. Descarregava um vagão quando uma haste de ferro se soltou atingindo seu braço direito. Com a perda de grande parte dos movimentos e sensibilidade do braço, aos 57 anos se tornara um homem impossibilitado de trabalhar. Aposentado por invalidez, ele relata que precisou de algum tempo para se recuperar do sentimento de inutilidade que lhe tomara.

“Carrego comigo uma fé que não é minha, Nossa Senhora e o Senhor Jesus sempre me ajudaram e nunca me deixaram faltar nada. Mesmo que sempre tivesse pouco. E a fé, ah… essa quem a tem sempre consegue chegar aonde quer, fazer o que quer e alcançar os sonhos, mesmo que diferente daquilo que esperava. Mas Deus sabe o que faz, né meu filho!?”. E é essa mesma fé que hoje lhe mantém de pé há apenas dois meses após ter perdido sua esposa.

Exemplo de vida, coragem e sobrevivência, Londrina não somente se construiu com política, riquezas e belezas, mas também lágrimas e esperanças de um povo que muito lutou por seu sustento e felicidade.