Um contra um. Dois contra dois. Três contra três. Formava-se o time. Quando o número total de garotos era ímpar, colocavam-se os dois melhores no mesmo time pra jogar contra a “rapa”.

Par ou ímpar. Dois ou um.  Três “pôs”. Time com camisa, contra time sem camisa. Eram várias as formas de caracterizar as equipes.

Era futebol de rua. O famoso “golzinho”.

Golzinho formado por um par de chinelos. Chinelos separados pelo espaço entre quatro ou cinco passos em média (dependia do tamanho dos pés que o mediam). Posicionados na vertical da linha de fundo, os chinelos formavam as traves.

vascainos-disputam-um-golzinho-improvisando-com-chinelos-de-dedo-1462341312472_1024x768.jpg
Crédito: Bruno Braz/ UOL Esporte

 

As linhas do campo eram traçadas geralmente por um pedaço de pedra ou tijolo.

As regras eram combinadas ali, a poucos instantes de começar a partida. Entre elas:

  • Não vale gol por cima. Só rasteirinho.
  • Subiu no meio fio é lateral.
  • Vale tabelar com o meio fio.
  • Mão na bola é pênalti.
  • Cinco vira, dez termina.
  • Se um time estiver muito fraco a gente mistura.
  • Se tiver time de próximo, quem fizer dois gols primeiro, ganha.
  • Se empatar sai quem está jogando mais tempo.
  • Se tiver jogador de fora, quando sair dois gols ou depois de dez minutos, ele tira um do time que estiver perdendo.
  • Relou a bola no chinelo, é trave.
  • Como não tem juiz, pediu falta, parou.
  • Pênalti e gol, é gol.
  • Acabou o tempo. Último lance!
  • Chutou longe, busca.

Não tinha data, dia, hora, às vezes nem bola tinha. Mas isso não era um empecilho. Até mesmo papel com fita adesiva, servia de bola.

Os jogadores, de pés descalços, protagonizavam o espetáculo. Que por vezes era interrompido pelas passagens dos carros no meio da quadra de rua. Ou interrompido pelos gritos das mães chamando os jogadores para almoçar, jantar, tomar banho, sair da chuva ou fazer tarefa da escola. Ou até mesmo pela lesão do jogador que perdia o “tampão” do dedo ao chutar o chão. O que chocava a todo mundo.

Machucado - Montagem (2006)
Crédito: Blog Registros do Bê

 

Futebol de rua que misturava o pobre com o rico, o negro com o branco. O bem vestido, com o mal vestido. O que não conseguia jogar descalço com o que coloca os chinelos nas mãos pra jogar.

Futebol que servia de peneira para os times de várzea dos bairros.

Futebol que embora tenha perdido espaço entre as brincadeiras das crianças de hoje, ainda não morreu. Não chegou a seu apito final.

Vida longa ao futebol de rua!!!

 

Crédito da imagem de capa: Victor Moriyama/Getty Images