“Pés, para que quero, se tenho asas para voar?”, a frase é de Frida Kahlo, uma das artistas Mexicana. Símbolo cultural. Pintora, revolucionária, mulher a frente de seu tempo. Não abalou-se com tradições conservadores. Viveu. Frida era intensa. Característica que guardava para si como um tesouro. Permitiu-se sofrer. Provocou  sentimento híbrido de fascínio e espanto na crítica da época.

Certa vez, ainda nos primeiros momentos de seu tumultuado relacionamento com o pintor mexicano Diego Rivera, ele disse “Não há comparação entre nossas pinturas, você pinta o que está dentro de ti, eu pinto o que vejo. Só.” O companheiro a resume com uma concisão impressionante. Isso é algo que todo artista busca. Retratar o que sente, o que precisa colocar pra fora. Frida fazia com uma facilidade incomparável.

Dor, essa é a palavra que melhor resume a vida de sua vida. Sentiu dor ao nascer com poliomielite, doença que a prejudicou pelo resto da vida. Sentiu dor ao sofrer um acidente de trânsito, ainda na adolescência. Sentiu dor ao conhecer Diego Rivera. Sentiu dor por não conseguir gerar um filho em seu frágil útero, uma das obsessões de sua vida. Sentiu dor ao ser constantemente traída pelo marido, a principal obsessão de sua vida. Doeu. Viver doeu para Frida.

Entretanto, para a sorte do mundo da arte, ela transformou  toda essa dor em quadros. Transformou todas as dores em surrealismo. Transformando e deformando a si própria por mais de cem vezes em auto retratos. Retratando sua alma dolorida. Pintando seu filho inexistente. A pintura da mexicana é intrigante, mexe com o psicológico. Tudo isso graças à dor.  Esse  sentimento  que,  quando  trata-se  de  arte  – pintura,  literatura, escultura – é o mais belo, mais inspirador.

O que diferencia Frida de todos os sofredores que fazem arte é a seu aparente amor pela dor. A sua afinidade com o ato de sofrer. Parecia sempre procurar desesperadamente,   em   todos  os   cantos ,  sentir  dor   e  dor.  Uma   espécie   de sadomasoquismo eterno. Diego personifica isso. Não era nada. Nada para Frida, nem para ninguém. Vivia para si, era um individualista que via seus desejos como tudo. Egocêntrico. É como se ela tivesse convivido tanto com a  dor, que o remédio mais eficiente era arrumar mais formas de sofrer.

Sofreu mais. Pintou cada uma dessas dores. Família. Desigualdades sociais. Aborto. Violência. Comunismo. Diego. Sorte da arte. Ganhamos a Frida. Ganhamos suas pinturas. Sentimos sua arte. Sentimos sua dor. Sentimos quem era Frida. Dor. Enfim, com Frida, percebemos que a dor pode ser produtiva, por vezes. Isso é arte.

(Crédito: http://www.luizafranco.com.br)