“Nada se compara à perda de uma pessoa especial. É uma perda de amizade, perda de chão, de trocas de confidências, de conselhos e broncas, de risadas à toa. Imagino como será quando as férias acabarem. Acordar cedo. Chegar ao colégio às 7:10h e não encontrá-la no banco em que sempre me esperava. Nos intervalos, não tê-la comigo durante os 15 minutos até o sinal tocar. Ir embora depois da aula sem a companhia que tanto me alegrava. O fim de semana chegar e me lembrar de quando íamos para o shopping assistir um filme ou quando ela ia para a minha casa para conversar e fazer brigadeiro. Fazia apenas dois anos que a conhecia. Mas era minha irmã. Uma das minhas melhores amigas.

Lembro-me da última vez que a vi, há menos de um mês. E então, numa sexta feira, um dia depois da sua morte, recebi a notícia num susto. Desliguei o celular porque não sabia o que falar. Era impossível. Tentei me controlar, mas falhei. As lágrimas se espalharam pelo meu rosto. Rímel borrado. Soluços. Água com açúcar. Quando cheguei em casa não sabia como contar aos meus pais. Só conseguia chorar. Meu pai me confortou em um abraço. Minha mãe tomou a dor para ela. Chorou. No fim do dia, recebi uma sms. “Obrigada pela sua amizade! Parabéns pelo nosso dia!”. Desabei. Era dia 20 de julho, dia do amigo, o dia dela.

Quem acreditaria que ela morrera num acidente? Justo na viagem que tanto esperava desde janeiro. Fico perdida com tantas perguntas sem respostas. Tenho me questionado todos os dias. Quem sabe me dizer onde ela está agora? Por que teve que partir sem se despedir? Por que uma menina de 17 anos? E por que levar também o pai e deixar a irmã de 7 meses desaparecer? Como uma mãe sobrevivente pode suportar essa dor? Uma morte trágica. Afogamento.

Não existia motorista alcoolizado, apenas uma curva fechada sem sinalização numa estrada de terra. Não me conformo. E eu? Agora escuto palavras bonitas, dizem que ela está num lugar melhor, que tenho que ser forte e que o tempo vai curar o meu sofrimento. Mas só queria abraçá-la, tê-la de volta, cumprir os objetivos que tínhamos traçados, como irmos juntas para a cidade que ela tanto amava, Santos. E assistir a um jogo do Peixe, um amor em comum entre nós.

Apenas algumas semanas depois do dia 19 de julho de 2012 e continuo esperando ela me ligar, dizendo que tudo foi uma brincadeira. Mas, no fundo, sei que isso não vai acontecer. Sei que, agora, ela está aguardando pela minha visita. Esperando pelo meu buquê de flores. Em algum cemitério. Longe de Londrina.

Fico frustrada ao lembrar que não pude, ao menos, ir ao seu velório. Choro todas as noites mesmo sabendo que ela não quer me ver sofrer. Finjo ser forte para não preocupar quem me ama. Fico incomodada por não saber se ela está escutando minhas orações de todas as noites desde que se foi. Não posso aceitar sua morte. Minha amiga era saudável, nem teve a chance de ir para o hospital, não tive oportunidade de rezar para que sobrevivesse.

Confusa, incompleta, amedrontada, inconformada, dolorida, desanimada, fraca, indecisa. Sinto necessidade de conversar, pedir ajuda, desabafar. Ao mesmo tempo, quero ficar sozinha, pensar milhões de vezes no que aconteceu, chegar ao ponto de ficar imaginando a cena do acidente, o seu desespero debaixo da água. Quando esse pesadelo vai acabar? Quanto tempo vai demorar para me livrar desse luto? E só de imaginar que esta foi apenas a primeira das minhas perdas, fico pensando o que me motiva viver, se a tendência é que pessoas que amo irão para nunca mais voltar.”

– Em memória de Daniele Oliveira, minha eterna santista preferida