Quem ama futebol tem o hábito de acessar sites esportivos todos os dias. O fanático pelo esporte nunca está satisfeito. Anseia por notícias sobre o mundo da bola. O Pato já voltou? O Ganso vai mesmo para a Europa? O Tite aceitou o convite da CBF? Como foi o clássico de ontem? Cadê os vídeos do pênalti perdido pelo Messi na final da Copa América? O Prass foi mesmo convocado para a Olimpíada?

Ao acessar Globo Esporte, ESPN, UOL ou, Lance, o internauta é engolido por um mar de informações. Um pouco sobre tudo. Os olhos mal sabem para qual direção apontar em meio a tantas manchetes. São sites que tratam o homem como público alvo. Todas as notícias são da perspectiva masculina.  A maioria dos portais até tenta disfarçar. Mas um em específico, chega a desrespeitar as mulheres com seu discurso antiquadro e machista. A política editorial do LanceNet parece ser uma afronta a todas as fanáticas por esportes.

Nas manchetes destacadas no centro da página, um tema se repete constantemente. “Ex de guerreiro se mostra sexy”. “Pato e as gatas”. “Meia do Corinthians tem muito o que comemorar dentro e fora de campo”. “Confira as conquistas de Pato fora de campo”. Mulheres objetificadas. Sempre como sujeito passivo das orações. Cadê as atletas? O futebol feminino? Cadê esporte, Lance?

A escassez de pautas é nítida. O Lance busca desesperadamente por cliques na página. Visualizações. Mas, para isso, se apoia em uma retórica machista que diminui o gênero feminino a aparências.

Fala sobre mulheres. Mas não sobre as atletas. Prefere as erotizadas. Estampa uma personagem semi nua na capa da matéria. A notícia tem, no máximo, 3 parágrafos. Qual a relevância? Nenhuma. Mas precisa chamar a atenção dos leitores  homens. Machões que aplaudem o site e sustentam o ciclo. Apela para a venda da imagem feminina para ganhar cliques e sobreviver.

O modo como o jornal trata as mulheres é intolerável. Soa como ofertas. Como trofeus a serem exibidos. Exploram o lado sensual da mulher. Essa mulher, que nunca tem nome. É sempre chamada de “ex de fulano”, “irmã de sicrano”, “atual de beltrano”. Vende machismo para lucrar.

Em alguns casos, inclusive, a mídia retrata a protagonista como um pronome possessivo. “Mulher de fulano”. Insiste em omitir o nome dela. Como se não importasse. Traz força ao nome masculino. De preferência, um jogador conhecido. Quanto mais consagrado, melhor. É mais atrativo ao público. Até porque, é disso que homem gosta.

O foco é no rosto bonito e no corpo dentro do padrão estipulado. Características que obrigatoriamente devem estar na foto da manchete. Foto escolhida a dedo. A mais sedutora possível. Não importa o que a mulher faz ou quem ela é. Para a mídia, ela é nada mais que beleza. Infeliz a realidade do jornalismo esportivo. E chocante ao público feminino.

O Lance, como um jornal de grande repercussão, poderia utilizar-se da sua credibilidade para incentivar a valorização do esporte feminino. Poderia investir em produção de materiais que abordem temas relacionados a mulher no esporte, assunto pouco explorado em todas as outras grandes mídias.

A erotização do corpo feminino é tratada com maior intensidade no site do Lance.  Porém, a pregação da cultura machista nas notícias não se limita somente a ele. Está presente no esporte em geral. Um exemplo claro no futebol é a seleção de musas do Brasileirão. Fomenta a ideia de que o futebol é um esporte para homens. É totalmente excludente.

Mas isso também não significa que precisariam instigar a criação dos “musos”. Muito pelo contrário. A campanha “Musa do Brasileirão” é uma forma de fugir das pautas sobre esportes. Não há informação. Não é notícia. É somente mais uma prova do interesse lucrativo utilizando-se do corpo feminino.

Expor a mulher. Transformá-la em um objeto. Enaltecer o homem por ter posse dela. Menosprezar o homem por tê-la perdido. Este é o manual de instruções que o Lance usa para alcançar seu objetivo. Enquanto tem o poder de produzir um futebol de todos e para todos, homens e mulheres, sem diferenças de gênero, a mídia esportiva prefere contribuir para revigorar o machismo no futebol.