Joana estava angustiada, mais uma vez. Ao acordar naquela fria manhã de agosto, sentiu-se desconfortável, com leves dores de cabeça, sintoma comum de noites mal dormidas. Levantou-se. Vestiu-se. Foi até a cozinha e preparou sua bebida preferida: chá. Ao pegar a xícara vez e levar até a boca, ouviu algo tremer. O seu celular tocava no quarto. Foi em passos pesados, sem pressa, ao avistar o número em seu celular, balbuciou algumas palavras, encheu seus pulmões de ar por três vezes e, irritada, atendeu:

– O que você quer?

– Será que a gente pode conversar?

– Já disse que não. Olha , não estou bem, não dormi direito, não é o dia. Por favor, me deixa.

– Eu deixo, é só você falar comigo por um minuto. Quero saber como anda as coisas. Por favor.

Joana estava no limite. Desligou. Irritada com tudo que aquela voz grave a fazia lembrar. Deitou-se na cama. Exausta. Depois de alguns minutos, ouviu alguém bater na porta. Continuou imóvel. Forçou um sono estrondoso. Fechou os olhos. Queria fugir dali. A visita desistiu.

Sua casa era toda bordada de cinza. Os vidros, os talheres, suas roupas, o ar. Seus móveis, apenas três, eram marrons escuros. Seu quarto era de um tamanho mínimo, a cama era de solteiro, com dois travesseiros na vertical, e um lençol branco levemente manchado. No quarto havia três livros em cima da mesa. Os livros eram velhos, porém nunca haviam sido lidos. Ao lado os livros empoeirados havia um porta retrato em moldura grega, a foto era de uma pequena menina que sorria e usava um vestido vermelho de renda.

No fundo do seu silêncio, Joana ouvia vozes, parecia uma rebelião. Pensou por algum instante que tinha alguém ali com ela. Num movimento de desespero apertou um dos travesseiros contra sua face. Percebeu que o som vinha diretamente da sua janela. Caminhou com os mesmos passos vagarosos até o ruído desconcertante.

Avistou uma ninhada enlouquecida de pessoas. Tinha de tudo. Juntas, elas formavam um único vulto, todos andavam na mesma direção. Pareciam demasiadamente felizes. Joana esqueceu, por alguns instantes, de sua condição olhando para aquele vulto. Avistou um casal de jovens se atracando, atrapalhando os transeuntes eufóricos. Esboçou um sorriso ao avistar um celular ambulante. Havia gritaria e música alta. Joana olhou para o lado, o calendário torto na parede apontava: era carnaval. Lembrou-se de tempos remotos quando, ainda jovem, esperava ansiosa pela data.

Lembrou–se do sobrado verde imenso em que morava, igual pedia para sua mãe quando era menina. Tinha um marido. Tinha uma menina que sorria e usava vestido de renda. Tinha um emprego. Tinha. Hoje o que ela possuía era aquela casa. Aquela janela. E o carnaval já não estava mais ao seu alcance. Ali passava todos os seus dias. Nunca tinha vontade de sair de casa. Os dias das compras eram seus piores pesadelos. No começo até tentou lutar contra isso, fazia um esforço, um pé de cada vez, arrastava-se até o mercado, corria com a lista, apressava-se na fila, olhava para o relógio a cada minuto e quando, finalmente fechava a porta de sua casa, sentia uma felicidade, o máximo que conseguiu sentir durante aqueles dias. Logo Joana contratou uma moça, jovem e simpática, estudante de psicologia, para fazer a faxina e suas compras. Exigia chá. Só. O resto era tarefa da moça.

Nada a tirava de casa. Seus dias resumiam-se ao seu chá no bule e sua cama manchada. De vez em quando esboçava uma reação. Olhava o porta retrato. Pegava os  livros e antes do primeiro parágrafo que dizia “Você não deve sucumbir. Ela tentará agarrar seus pés com força. Deixará marcas de luta. Mas você não deve sucumbir.”, adormecia.

Nada parecia lhe tirar desse estado. Nem o carnaval. Enquanto esboçava mais uma olhada de canto de olho para a festa, olhou o porta retrato, ouviu seu telefone voltar a tocar. Ignorou.

Desejou, pela primeira vez em anos, estar ali, no meio daquela multidão. Voltar no tempo. Desejou liberdade. Calor. Ao abrir as persianas desbotadas, uma corrente de ar surrou sua face. Ela recebeu com um movimento de abraço. Fechou os olhos. Esqueceu por um instante que não havia mais vestidos de renda. Que não havia mais razões. Quis sentir aquele ar mais de perto. Desejava aquela multidão dentro de sua alma. Fez movimento de subir no parapeito. Hesitou por alguns instantes. Subiu. Em sua face havia um semblante juvenil. Pé ante pé, ela aproximou-se da beirada da janela. Ao fazer mais um movimento de abraço, procurando ar. O telefone em sua mão tocou novamente. Caiu no abismo.

(Crédito imagem: umanoitedeluar/ tumblr)