Ritual ainda não reconhecido pela Cúria Romana consiste na expressão de fé dos fiéis que tiram fotos com a câmera frontal de seus aparelhos durante a missa.

Londrina, 10 de junho de 2016, três da tarde. Catedral Metropolitana. Frio intenso.

Centenas de pessoas reunidas assistindo a missa, dentre elas, uma jovem senhora de poucas rugas sentada no 3° banco da terceira fileira, no lado esquerdo do fundo da igreja. Casaco vermelho, um par de botas marrom de bico surrado. Um cachecol verde em torno de seu pescoço, que protegia também parte dos cabelos castanhos. Calça jeans.

Em sua mão, enfeitada com dois anéis dourados estava um iphone.

Com o aparelho protagonizou uma cena intrigante. Uma espécie de ritual em meio ao rito eucarístico presidido pelo padre.

A senhora levantou-se do banco, oito passos foram suficientes. Câmera frontal acionada. Os demais fiéis formavam filas para receber a eucaristia. E ela girou em 180°. Ergueu o iphone como se o ofertasse a Deus. Um, dois, três ou mais cliques. Retornou do giro. Mais passos eram dados. Sem nenhum constrangimento.

Mas que ritual era aquele? A quem ela prestava culto daquela forma?

Alguns minutos passaram e então guardou o celular no bolso do casaco. Como os demais, entrou na fila da comunhão. Suas mãos inquietas entrelaçavam-se, incontrolavelmente.

Atrás dela um rastro de curiosidade se formava.

A três fiéis de receber o corpo e sangue de Cristo, o rito reiniciou-se, porém sem o a câmera frontal e o giro de 180°. Mas com os cliques constantes.

Mais alguns passos dados. Mas agora andara para receber a eucaristia. Enfim recebera.

Instante de silêncio e meditação. Olhares especulosos observavam a jovem senhora, como que esperando mais alguma manifestação de sua fé.

Alguns minutos se passaram, e parecia que finalmente o rito de “selfé” da senhora havia se encerrado.

Porém na benção final, ela tomou o aparelho em mãos e em passos largos e ligeiros foi até a frente do altar. E de frente para o padre, o último passo do ritual foi executado. O giro, a câmera frontal, os cliques, as poses. As costas dadas ao sacerdote.

Finalmente estava satisfeita. Recolheu no bolso o iphone e calmamente foi embora. Deixando para trás um encalço de curiosidade, estranheza, reflexão e dúvida.

Quantas selfies são necessárias para se alcançar a vida eterna através daquele rito?