Sento-me na cadeira. Olho para o relógio: 23:45. O horário é confortável, dará tempo para esquentar a água do chá. É o que faço. Ao acomodar – me novamente são 23:55. Tranquilo. Tenho essa mania de querer começar todas as tarefas em horários redondos. É uma fixação que me acompanha desde a infância. Se fizer o contrário tudo será uma tragédia, eu sei que será. Sou escravo dessa regra.

00:00, hora de ir ao trabalho. Apesar de ninguém achar que isso que faço todos os dias é realmente um trabalho. Ou coloque alguma fé que irá virar algum dia. Talvez não vire mesmo. 00:05, ligo o computador, coloco minha senha, o Google chrome olha pra mim, eu olho para ele, momento decisivo para meu futuro, talvez nem tanto. Que drama. Abro o coitado. Verifico meu email, nada, nunca tem. Vejo minhas atualizações em todas as redes sociais. Parece que o Eduardo Cunha virou o jogo de novo. É o novo presidente do Brasil. Glória.

00:15, agora não posso começar mais nada. Droga. Divido minha atenção entre a lista das quinze coisas que eu tenho que saber para ser um homem moderno e o relógio. 00:23. Sobre minha mesa está uma edição em capa dura de Grande Sertão: Veredas, encalhada. Há um mês que tento decifrar o regionalismo de Guimarães, mas ele tinha que escrever por mais de 600 páginas em sua obra prima. Certamente ainda não tinha sido incluído no grupo da família no WhatsApp.

00:30. Parece que o destino sorri novamente para mim, posso finalmente começar. Clico no Word, agora vai! Ao escrever: Títu… Um barulho silencioso me chama atenção. Tento voltar para meu teclado. Afinal, meu futuro depende disso. Mas já não consigo parar de pensar no maldito barulho. O que será? Minha mãe está bem? Cunha Caiu? Pode ser algo urgente. Pode estar acontecendo um atentado em algum lugar do mundo neste exato momento, eu preciso saber. Levanto-me rapidamente e verifico mais um vídeo incrível da mãe que filma o bebê sorrindo para seu objeto voador. Hilário.

00:40. Perco um pouco a concentração, a história das onze horas já não me parece muito clara. Tenho dúvidas quanto ao desfecho do personagem principal. O enredo do conto está desfocado em minha mente. Ou seria uma crônica minha escrita de hoje. Pensando bem, a forma como o rosto do menino contrai-se quando ele percebe o objeto desconhecido é realmente muito engraçada.

Na minha luta por um futuro, que não seja tentar explicar para minha família para onde foi todo o dinheiro investido nos meus estudos, procuro desesperadamente digressões sobre a sociedade moderna. Tudo isso para encher mais uma página de Word, sem histórias. Tudo isso para ir dormir à 1:00 da manhã, com a desculpa de que está ficando tarde. Afinal, se eu não dormir agora, amanhã não aproveito o dia. Não tento ler Guimarães. Não faço mais um chá. Não escrevo mais uma página de Word. Não vejo mais um vídeo hilário com bebês sorrindo. Afinal, trata-se do meu futuro. Quero escrever em tempos de Facebook!