Foram 30 minutos de espera na recepção do consultório médico. Uma mãe, cerca de cinquenta anos, e a filha ao lado. A jovem, que aparentava ter uns 20, é portadora de algum tipo de deficiência mental que afeta não apenas sua coordenação motora como também sua capacidade de falar.

Um tablet, nada discreto, era a distração nas mãos daquela mãe e o passa tempo necessário enquanto aguardava ser chamada para a consulta. A mulher se conectava com o mundo e nada  e nem ninguém a sua volta pareciam incomodá-la. Inclusive sua filha que, por diversas vezes, tentou, inutilmente, chamar pela atenção da mãe.

São várias as possibilidades de anseios daquela jovem garota. Estabelecer um diálogo com a mãe, alertá-la de algo que lhe incomodava ou compartilhar algum fato interessante. Mas a mãe se manteve desinteressada o tempo todo.

Cenas como essa são comuns no dia a dia e podem ser vistas com frequência ainda maior em casas de famílias. Pais, mães e filhos que parecem terem trocados momentos de convívio pela conectividade com o mundo virtual.

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Ilustrações do projeto “Conecte-se com o que importa”, da Associação Amigos do HC, assinada pela TIF Comunicação. (Foto: reprodução)

Essa jovem está entre os filhos que, de acordo com uma pesquisa realizada pela AVG Technologies, se sentem trocados por smartphones dentro de casa. O estudo, realizado no ano passado, aponta que, em comparação com outros países, os pais brasileiros são os que mais usam dispositivos móveis em excesso. A pesquisa apontou ainda que 87% dos filhos ficam descontentes com essa situação.

56% das crianças entrevistadas afirmam que “confiscariam os dispositivos móveis dos pais se pudessem” e que, frequentemente, os pais se distraem usando o aparelho quando conversam com os filhos. Enquanto 32% dessas crianças sentem-se desprezados quando isso acontece.

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Projeto da Associação dos Amigos do Hospital das Clínicas de Curitiba e TIF Comunicação. Foto: reprodução

O homem adquiriu ao longo dos anos a incrível capacidade de se conectar com pessoas em qualquer lugar do mundo. Possuem, ao alcance das mãos e nas telas de um celular, notícias em tempo real e os mais diversos ensinamentos deixados pelos sábios e filósofos deste mundo. Mas, assim como apontam as pesquisas, estão perdendo a capacidade da interação, proximidade e convívio.

Além do vício, consequências deste distanciamento também são facilmente encontradas quando abordamos temas como isolamento, bullying, pornografia e pedofilia. E ao fenômeno que muitos já chamam de “violência virtual”, podemos atribuir a falta de diálogo entre pais e filhos a diversos outros danos às crianças e à sociedade em geral. Muitos já irreversíveis.

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 (Foto: reprodução)

Passados trinta minutos de espera pela consulta e após o atendimento, mãe e filha foram embora. E a angústia daquela garota certamente a acompanhará pelo caminho enquanto, ao seu lado, sua mãe permanece ausente.