Uma família. Uma sala. Quatro paredes. Um homem. Em meio ao silêncio só se ouve uma respiração. O barulho dos aparelhos. Pessoas de branco atentas a qualquer reação.

Ele sentia dores insuportáveis. A cada crise, uma perda de sentido. Gritos inusitados e incontroláveis. O desespero da família por não saber o que era e nada poder fazer. Idas e vindas em pessoas especializas. O alívio de momentos desesperadores. E a angústia da crise retornar sem, ao menos, um breve aviso.

Perceberam que precisava ser investigado a fundo a raiz de tanta dor. Acharam. Neoplastia. Gritos de uma mãe desesperada. Inconformidade. Pessoas com olhares desnorteados sem entender muito bem o porquê. A única certeza era que Deus tinha o controle de tudo.

A transferência para o início de um tratamento, desde que não seja tarde demais. Algumas horas se passaram de uma tarde de quinta feira. Outra crise. Essa era pior. Seu corpo entra em estado de grande agitação. Após algum tempo, os homens de branco desatentos se atentam.

Tudo que indica, o miolo de sua cabeça estava inchando. Começam a correr pelos corredores. Os homens de branco se preparam para intervir, com urgência, na raiz das crises de dores do jovem. Após 4 horas, o procedimento termina e o levam desacordado para o quarto branco.

Suas noites seriam passadas ali por um tempo. Mesmo dormindo, obrigatoriamente, recebia visitas. Era como se um cronômetro tivesse sigo ligado. Para a esposa, cada visita parecia ter apenas 30 minutos. 30 minutos de ansiedade, de conversa e que passavam como se fossem 5.

Um pouco mais de 48 horas, outra visita. Mais 30 minutos. A esposa adorava ser ouvida e contar tudo que a neném, a princesinha do papai, aprontava e que divertia a família. Essa noite foi diferente. Após os minutos de conversa, houve uma reação. Ele mexeu a boca. E ela sorriu.

Mais de 72 duas horas se passaram e o quadro era instável. Cada hora que passava era uma hora a menos que ele tinha para acordar. Porém, a cada hora, a esperança era renovada de que esse seria o momento. Seis dias e nada mudou. Ele ainda estava ali. Naquela cama. Naquele quarto. Imóvel. Apenas com uma dificuldade imensa para respirar.

Era de manhã e mais uma visita. Naquele quarto branco já não se ouvia nem a respiração. Era quase certo. Seu tempo por aqui estava acabando. O cronômetro de sua vida estava se encerrando. A noite chegou. Junto com ela veio a esposa e seus 30 minutos de visita.

O quarto estava vazio. Um silêncio interminável. Para ela, era difícil associar o que estava acontecendo. Suas horas terminavam ali. A esposa queria reiniciar o cronômetro, mas sabia que isso não estava sob seu controle. Soluços.

Foi ditado que a moça teria que reconhecer seu marido. O quarto do jovem era outro. Escuro. Frio. E sua cama era uma espécie de gaveta. Soluços. Inconformidade. A certeza de que, após passar pelo quarto branco, o jovem voltaria pra casa foi contrariada e a angústia inconformável de que nada se podia fazer.

Gritos. Choros. Ligações atrás de ligações. Fotos. Declarações. Palavras de conforto e doces lembranças. Uma multidão que carregava (com afeto) o jovem no peito, hoje o carrega nos braços. Flores. Lágrimas. Uma missão cumprida. E a eterna saudade !