Os times já se preparavam para iniciar a partida quando de repente algo desvia a atenção do torcedor na arquibancada no Estádio do Café. A entrada de um homem em trajes sociais chama a atenção de todos. Trata-se de um homem alto, magro, de aparência quase senil, trajando um terno preto surrado em seu corpo. A entrada desse personagem causa furor nos torcedores, tal como seria a entrada do craque do time no meio da multidão. Todos o reconhecem. O homem acena para os entusiastas que gritam seu nome, que chamam sua atenção, parece apressado e quase tropeça ao descer as escadas da arquibancada. O torcedor em questão chama-se Wilson Barbosa Silva, de 55 anos, ou, como é conhecido, Vanderlei Luxemburgo do Londrina.

Wilson é talvez o mais ilustre torcedor do Londrina Esporte Clube, acompanha o time de sua cidade desde criança, porém foi há quatro anos que decidiu colocar um terno, uma gravata, tal como o famoso técnico que o inspirou, e apoiar o clube de forma inusitada nas arquibancadas. Com fala pausada e serena explica qual foi o motivo de sua iniciativa “Fui comprar uma camisa do Londrina para a minha neta e me disseram que o Tubarão havia acabado, não existia mais. Naquele dia voltei pra casa muito triste. Quando eu sentei na minha cama, abri o guarda roupa e vi o terno que tinha usado no casamento da minha filha. Eu me inspirei no Luxemburgo e comecei a trabalhar aqui. Comecei a vir pro estádio assim.”

Ao menos por enquanto sua iniciativa tem dado sorte ao clube, desde lá, já foram três títulos (Campeonato Paranaense 2014 e Campeonato do Interior 2015 e 2016) e dois acessos seguidos no Campeonato Brasileiro. Wilson mostra orgulho ao citar os sucessos que seu clube do coração obteve nos últimos anos. Conta como se estivesse vivendo dentro de um sonho comandando o time “Desde que eu comecei, consegui subir o Londrina, fomos campeões paranaense. Eu estava lá em Maringá com a torcida, e agora conseguimos ir para a série B.”

Luxa, como é chamado pelo torcedor alviceleste, é uma celebridade no Estádio do Café. Durante o jogo, os espectadores dividem a atenção entre a partida e sua atuação. É impossível não perceber sua presença no estádio. Sua proposta é treinar o time pela arquibancada. Não para nem por um minuto durante a partida, corre de um lado para o outro, grita, acena para os jogadores, mostra-se ansioso quando uma jogada não sai como o esperado, irritado com a arbitragem, sobe na grade, pula, pede apoio da torcida, tudo isso com seu insubstituível terno.

Valdir dos Santos, assim como Luxa, é conhecido pelo torcedor que vai ao Estádio do Café, porém por outro motivo: é vendedor de amendoim no local há 29 anos. Valdir é um homem franzino, possui estatura baixa, com seu fone no ouvido e vestindo a camisa do clube, anda com dificuldade entre as cadeiras do estádio. Sua voz ao gritar “Olha o amendoim!”, é quase imperceptível. O vendedor, ao ser questionado sobre o ilustre torcedor-técnico, parece não lembrar-se bem de quem se trata, porém, ao cabo de alguns segundos refletindo, surpreende ao relatar a amizade e o carinho por Wilson “Ele é meu vizinho, meu amigo de infância”, quanto a motivação do amigo, Valdir diz não saber muito bem “Não sei bem porque ele faz isso. Nunca perguntei. Eu gosto dele. Ele é gente boa.”

Ao chegar perto do fim da partida o ilustre torcedor mostra-se cada vez mais inquieto. Movimenta-se com energia. Mostra-se ansioso gesticulando os braços em movimentos que cortam o ar horizontalmente. Wilson é, naquele momento, reflexo direto do que estavam sentindo os demais torcedores presentes no estádio. O time precisava de um gol para classificar-se para a final. O juiz deu o último assopro no apito. Não deu. A decisão seria decidida nos pênaltis. Neste momento, o torcedor-técnico sobe as escadas que vão em direção a saída do estádio. Dessa vez, ao passar pela torcida, não acena, não olha para os lados, não dá atenção, parece determinado a abandonar o local.

Edio Matias é torcedor antigo do Londrina, sempre que pode acompanha o time dentro e fora da cidade. Na ocasião, ele trajava uma antiga camisa do clube, o que demostra amor já amadurecido. Ao ser questionado sobre o personagem mais conhecido das arquibancadas, tem o semblante tangendo a comiseração “Para o cara fazer isso, tem que ter um parafuso a menos”, diz enquanto mexe as mãos em movimentos circulares na região da orelha. No entanto, não deixa de mostrar admiração pela figura excêntrica “É legal, ele é bem animado. As crianças gostam muito dele”, finaliza de maneira concisa.

Para a alegria de Edio, Valdir e os mais de 17 mil torcedores alvicelestes que estavam apreensivos naquela noite de sábado, Silvio, zagueiro do time da casa, converteu o último pênalti da decisão e colocou o Londrina na final do campeonato brasileiro de 2015. No exato momento que a bola entrou, o estádio explodiu. Gritos. Pulos. Abraços. Beijos. Tudo ali transformou-se em festa. É, com certeza, a alegria de ver seu clube do coração avançar nas conquistas.

Na saída do jogo, como não poderia ser diferente, ouvia-se apenas gritos e conversas animadas dos vencedores da noite. Nada se falava mais, nem de Wilson, nem de sua atuação nas arquibancadas. Pela janela de um ônibus feliz, para minha surpresa, avistei o Luxa, estava só, cabisbaixo, caminhando na chuva com seu terno, sua gravata, seus sapatos, com certeza impróprios para a atividade. Naquele exato momento lembrei-me de uma fala sua mais cedo “Hoje é meu penúltimo jogo fazendo isso. No ano que vem não estarei mais aqui.”. Talvez por estar nos seus últimos dias na pele de seu personagem, talvez pela emoção de ver o seu time finalmente disputar uma final nacional, se despedia do estádio sem acenar para a multidão.