“Um homem foi morto a tiros em um bairro da zona leste…” Esse é o modelo do jornalismo online. Rápido. Pela interatividade, portais de notícias inundam a internet de acontecimentos. Mortes. Agressões. Assaltos. Nada muito certo. Tudo superficial. Os artigos indefinidos tem uma função política nesse tipo de imprensa. Serve para marginalizar. Colocar na periferia quem merece. Quem nunca deveria ter saído de lá.

Milhares de pessoas são indefinidas todos os dias. Não merecem perícia, cuidado, análises. São “cliques”. Sites disputam de forma acirrada a “aberração” do dia. Famílias, pobres, moradores de bairros periféricos, que tem suas histórias contadas a partir do prisma do Estado.

Desgraças são contadas a partir de relatórios policiais. As “autoridades” não colocarão seus abusos diários. As violências cometidas todos os dias nas periferias dos grandes centros. Normal. Fazer o quê? É preciso contar histórias. Encher os sites. É bizarro.

A desgraça, às vezes, acontece nos bairros nobres. Pobres saem de suas “tocas” e “atacam” a alta sociedade. Grandes reportagens. Nomeações. O artigo definido entra em cena. “O engenheiro foi assal…”. “A médica foi…”.

Vão até os hospitais. Verificam com as assessorias. Informações. Não há pressa. Vale a pena. É a carne mais cara do mercado. Essa custa. A polícia dá explicações. A sociedade pede providências. Absurdos. Indignação. Rostos aterrorizados. A vida pós moderna declina. Aonde vamos parar? Inaceitável.

Pois é. Esses merecem indignação. Merecem cuidado. Enquanto isso, a periferia continua sem voz. Indefinida. Não são ninguém, no entanto, são os que mais sofrem. Têm suas desgraças despidas todos os dias na imprensa. São expostos aos estereótipos. Condenados.

Quem decide a notícia? Quem decide o que será apurado? Por que as decisões nunca vão de encontro com os interesses da população mais pobre? São questões que os estudantes de jornalismo aprendem a naturalizar. Saem da faculdade com esse modelo na cabeça. Pouco discutem. “Um homem foi morto…”.

A linguagem é política. Cada vírgula tem sua função social. Estigmatizar bairros como “perigosos”, “periféricos” e “criminosos” é dinâmico, fácil, atende a interesses. Os barões da mídia sorriem de suas propriedades gigantescas.

Cabe aos novos jornalistas mudar esse clichê moderno. Homens são também rostos, famílias, aflições, necessidades. Não apenas números. A função do jornalismo é inverter a ordem. Dar voz às periferias. Saber quem é esse homem. Por que foi assassinado? Quais as circunstâncias? Escutar a família. Conhecer a história a fundo. Definir os indefinidos. Desobedecer o Oficial.