Falar do Sport Club Corinthians Paulista não é só falar de futebol. Não é falar apenas de títulos, gols e dribles. Não é só falar de ídolos como: Biro-Biro,Casagrande, Dinei, Gamarra, Marcelinho Carioca, Neto, Rivellino, Ronaldo Giovanelli, Ronaldo Fenômeno, Sócrates, Tevez, Tite, Tupãnzinho ou Wladimir.

Corinthians é sinônimo de luta, conquistas e derrotas, que extrapolam as quatro linhas. Corinthians é sinal vivo da luta de um povo “maloqueiro e sofredor” (como canta a própria torcida nos estádios), por uma democracia que rompa com regimes ditatoriais e autoritários.

Hoje, quero te convidar a uma viagem no tempo. Viagem pela história de um clube de futebol, que contrasta com a história política do país. História tão atual, pelo momento político e socioeconômico vivido pelo Brasil.

Nesta primeira parte, vamos historicizar a Democracia Corinthiana. Voltar à década de 80 e entender o contexto em que se deu tal evento.

  • Contexto histórico

Na década de 80 o Brasil vivia seus últimos anos de regime militar. O presidente era João Figueiredo, que assim que assumiu a presidência, em março de 79, sucedendo Ernesto Geisel, deparou-se com uma delicada situação econômica brasileira. O país já havia encerrado seu período de grande crescimento, chamado Milagre Econômico, que perdurou entre os anos de 1968 e 1973, e vivia, desde então, as consequências de uma política de empréstimos que tentou sustentar a economia do país. A crise que se estendia já por alguns anos gerou impactos também na política e aumentou a insatisfação do povo com o regime militar.

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João Figueiredo (Crédito: Infoescola)

Neste período de efervescência política e levante das classes sociais em combate a ditadura, ocorreu uma das maiores movimentações populares da história do Brasil, as Diretas Já. Influenciado por um projeto de lei do deputado Dante de Oliveira que determinava a eleição direta para presidente, o povo foi às ruas em vários lugares do Brasil para apoiar o projeto. Entretanto, quando o projeto foi votado no Congresso saiu derrotado. No entanto, a pressão exercida pelo povo garantiu que o fim da ditadura se tornasse real e também a conquista do voto direto.

No encerramento do governo de João Figueiredo seu sucessor foi determinado por eleição ainda indireta. Tancredo Neves foi o sucessor. A ditadura militar chegava ao fim. É neste contexto que surge a Democracia Corinthiana.

  • Surgimento da Democracia Corinthiana

Em 1981, enquanto muitos estudantes, artistas e intelectuais participavam das campanhas pelo fim da ditadura militar no Brasil, o Corinthians protagonizou essa experiência inédita de gestão compartilhada e democrática. Intitulada Democracia Corinthiana. Mas esta expressão não foi criada pelos jogadores do clube. O jornalista Juca Kfouri, num debate sobre os rumos do clube, proferiu o termo “Democracia Corinthiana” como se já houvesse no Timão, uma democracia vigente. Após este acontecimento, o então publicitário do Corinthians, Washington Olivetto, começou a utilizar o termo para identificar o momento pelo qual passava o clube, tornando a expressão, uma marca.

  • A Democracia Corinthiana dentro do clube

A democracia dos alvinegros buscou mais participação dos atletas e dos funcionários do Corinthians nas decisões que diziam respeito ao clube. Como a abolição da concentração para alguns jogos, a definição dos horários de viagem, a contratação de novos jogadores e as mudanças na comissão técnica. Dando a todos valor igualitário de voto. Do faxineiro ao presidente. O movimento durou do final do ano de 1981 até o início de 1985. Os principais jogadores que encabeçaram o movimento foram Sócrates, Wladimir e Casagrande. Sendo Sócrates a principal figura representativa do movimento não só entre os jogadores e dentro do clube, mas especialmente, interligando o movimento às ações de busca da redemocratização em todo o país.

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Sócrates, Casagrande e Wladimir (Créditos: Blog Citadini)
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Wladimir, Sócrates, Juca Kfouri, Osmar Santos, dentre outros, discursando sobre a democracia (Créditos: Bumirakyat)
  • A Democracia Corinthiana foi idealizada pelos jogadores?

A Democracia Corinthiana não foi uma revolução ou uma proposta concebida pelos dos jogadores do Corinthians. No ano de 1981, o sociólogo Adilson Monteiro Alves foi convidado pelo então presidente do clube, Waldemar Pires, para ser diretor de futebol. Alves, que nunca havia integrado a direção de um clube, apresentou essa proposta inovadora para as tomadas de decisões no Corinthians, que envolvia a participação dos jogadores e da comissão técnica na tomada de decisões. Um modelo de gestão democrática.

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(Créditos: Superfourpaulista)

Nas próximas semanas, você confere a segunda parte desta viagem que tratará dos efeitos Democracia Corinthiana dentro das quatro linhas do campo, seu efeito para redemocratização do país e sua relevância para o momento político e social atual que o Brasil vive. Aguarde!